Jan
23
Game design for fun: porque nem todo mundo quer ser profissional

 

Uma das frases que aproxima o boardgame, dito uma atividade intelectual que alguns tentam de toda a forma transformar em algo elitista, com o futebol, símbolo máximo da cultura massificada “de povão” brasileira, é o desejo que os apaixonados pela atividade tem de se aproximar mais da atividade e de fazer parte de seus criadores.

O sonho de muitos meninos é jogar profissionalmente, e praticamente todo o boteco é uma verdadeira convenção de técnicos, reclamando ou apoiando as escolhas dos técnicos oficiais do time. Com o boardgamer, o jogador profissional e o técnico encarnam-se na figura do game designer.

Agora, seguindo a mesma comparação acima, vamos falar das pessoas que jogam futebol amadoramente, e dos técnicos desses pequenos times amadores. Eles não são profissionais, mas não significa que eles não possam sentir, naqueles momentos e em uma escala menor, uma sensação parecida de ser um jogador profissional.

Por que isso não pode acontecer com os jogos de tabuleiro?

A “moda craft” e o game design

Quem faz cerveja em casa deve querer ser a nova Ambev?

Hoje em dia você compra um kit e pode fazer cerveja. Pode aprender como fazer artesanato e produzir hortaliças em casa. Existe um mercado enorme de coisas que você costumava comprar e que agora você pode fazer por você mesmo, e ter um resultado interessante.

Com os boardgames modernos o mais próximo que existiu disso para o consumidor comum é o jogo 504, que permite que você faça diversas combinações de sets de regras e consiga, por meio dessas mudanças, diversos jogos diferentes. Ainda assim pode ser mais considerada uma personalização e não uma ferramenta de criação.

É importante fazer uma menção ao Kit Maker Êba, da querida Lisandra Rodriguez, que traz algo extremamente parecido com a questão de um kit para criação de jogos, embora a intenção dela seja uma criação um pouco mais solta do que a de simplesmente criar jogos de tabuleiro (pelo que eu vi, as crianças podem criar diversos tipos de brinquedos e brincadeiras, que não são sempre e necessariamente um jogo).

Eu acredito que o game design como hobby e atividade prazerosa e educativa deve ser divulgado e demonstrado em diversas situações. O projeto Fora da Caixa, do já conhecido Professor Lúdico Boscolo, é outro excelente exemplo de como essa atividade deveria ser tratada de forma diferente, e mais divulgada.

Quem acompanha as postagens vê que os alunos dele vêm trabalhando com referenciais e desenvolvendo ideias interessantes baseadas no repertório de jogos que ele leva a essas crianças, que não tinham esse acesso antes e que dificilmente o teriam, pelo valor médio do jogo de tabuleiro moderno no Brasil.

E se eu quiser me profissionalizar?

Quando você decide que vai começar a desenvolver um jogo de tabuleiro, você acaba procurando pessoas que estão fazendo a mesma coisa. Uma das maiores vantagens da comunidade de desenvolvedores é muito mais aberta do que jamais foi (olha, nesses 3 anos de caminhada eu vi gente negando documentação de playtest, então…)

O problema é que uma pessoa faz o caminho de começar a desenvolver porque acha jogos legais e é submetido a uma série de preceitos e até de alguns folclores que fazem parte da vida de um designer profissional.

Parece um acordo tácito que uma pessoa não pode desenvolver sem a pretensão de comercializar. Parece que desenvolver somente por ser divertido é algo fora da realidade, porque dá muito trabalho fazer um boardgame.

Dá muito trabalho fazer cerveja também, e nem todo mundo que compra o maquino para fazer cerveja ou que monta um time com o pessoal da firma para uma das Copas Kaiser da vida está interessado na parte desagradável de ser profissional.

Então um dos principais objetivos dessa conversa toda é deixar a provocação para quem está começando a desenvolver um jogo ou mesmo quem já desenvolve há um tempo: Você quer mesmo profissionalizar essa paixão? Porque se a resposta for sim, fique ciente que você só vai conseguir isso se for muito além do que é prazeroso ou confortável.

E tá tudo bem ser uma pessoa que desenvolve por prazer.